Repare, meu caro Kerouac, saiba que aqui a vida anda desoladora e como você sobrevivi aos consórcios por anos, e eles assim me proporcionaram vinhos baratos e leitura cara! Os cigarros vingavam-se de meus pulmões e o ar nunca me faltou, embora a comida de bandejão tenha me feito regurgitar pensamentos sartreanos! Cá ainda ouço nossa canção, aquela de Bob Dylan que inspirou tantas involuções! Tenho saudade apenas do tempo que nos sobrava e de seus olhos de paisagem quando eu falava de sentimentos pouco nobres!
Aquilo sim era um Royal Straight, baby!
E depois de esgotar as vontades vãs tento não me apegar às futilidades de uma vida vazia, mesmo sabendo que as pequenas epifanias nascem desses abusos frívolos e descartáveis.
O amor para mim tem cheiro de látex e gozo puído.
Mas odeio sentir-me dependente e percebo que quero é espatifar qualquer vínculo, qualquer vício, mas acabo me entregando a eles com mais violência do que quando me apeteciam as dependências.
As garrafas secas lanço contra o concreto armado, as bitucas de cigarro pisoteio para se apagarem, mas compro tudo que desdenho mais de uma vez.
Até quando vou poder pagar pra ver?
Suas alegorias insanas me trazem lembranças do tempo em que as esquinas me eram menos sombrias e fétidas. De quando os olhos alheios não me causavam asco e não me chicoteavam danos.
As humanidades nunca me proporcionaram pão e vinho e se não fosse minha capacidade de abstrair talvez não tivesse sobrevivido.
Mesmo assim, Kerouac, doei-me a seus devaneios por altruísmo, de maneira simples e cívica me coloquei em seus braços magros e jovens como quem se entrega com gosto ao seu carrasco.
Nos becos o caos, a selvageria, a desordem e o atentado ao próximo sempre me acompanharam de perto, mas era jovem e inconsequente, nada me atingia em cheio!
Nós nunca almejamos arco-íris ou chuva de meteoros!
Enquanto você me esperava em casa com a perna quebrada, por tantas rasteiras da vida, eu me vendia por bebida e diversão. Por horas, dias e anos estranhos meteram a mão por baixo de minhas saias arrancando-me ralos pudores, deixando esmolas e levando gozos recolhidos.
Não estou reclamando, aprendi contigo a não me arrepender de nada! E o vil metal que troquei por mim comprou-me ovos fritos, conhaque e companhia sua.
É certo que dinheiro não compra tudo, mas nos dá a dimensão quase completa do possuir, o que creio seja o mais próximo dessa tal felicidade utópica.
Você nunca foi óbvio e por vezes se zangava com minhas serenidades, mas o que posso fazer?
Por mais que queira não ser mulher, por mais que negue essa condição imposta e desonre essa tal feminilidade, ainda sou mulher e tenho sentimentalidades.
A tala na perna e o andar desajeitado te deixaram mais frágil e as impossibilidades te fizeram um pouco mais meu e isso te desagradava.
Não pense que desconheço tal sentimento, você sempre me aprisionou em sua boca, baby!
Foi bom ter seu corpo entregue aos meus cuidados, naqueles dias.
Banhar e alimentar o homem que venerei apaziguava as dores de faltas e ausências.
do que não senti por não gerar ou parir, creio que tive ao acolher-te.
Não digo isso com amor, o sentimento de posse é mais forte que qualquer outro, fui dona de alguém, mesmo que por pouco tempo.
Temos nossas brevidades pérfidas e admito que gostei de ter-te, naquela época em que não tinha quase nada além de mim.
Conheço bem sua filosofia do tudo ao mesmo tempo, agora. E sei que se irritava em ter apenas duas mãos para abraçar esse mundo gigante.
Nunca dormia antes de você e quero que saiba que ouvi todas as suas orações para Dean Moriarty, nosso deus-pai.
Sabe, eu já quis tudo ao mesmo tempo e não aguentei o tranco, nem Dean aguentou e acabou como pastorador de carros numa garagem qualquer em Nova York.
Já estive no chão, na lona, sei bem a sensação de um direto cruzado, o sabor do sangue na boca e o gosto que a derrota tem. E às vezes arroto com o gosto dela na boca!
Mas a derrota não me traz desmerecimento, ela é minha única e verdadeira glória, baby!
Ainda amo você por me fazer lembrar do que vivi quando tinha a sua idade e para quem não acredita em deuses isso é bento!
Sobraram-me apenas alienações e as recordações das viagens alucinadas que fizemos.
Não tenho mais com quem compartilhar minhas sandices e a vida desregrada que levo, estou entregue ao álcool, às drogas e aos viscos sexuais.
Outrora pensei em regressar ao nosso canto e olhar-te mais uma vez nos olhos, como quem anseia se encontrar fora de si, mas já desisti.
Não somos os mesmos, baby!
Embora todos os homens me tratassem bem e me fizessem feliz por algum tempo, as mulheres constantemente lançavam-me olhares de fúria e desdém, não que eu procurasse a aprovação delas, mas sempre fui rechaçada como um demônio entre as santas imaculadas no Paraíso.
No fundo sinto que queriam ser como eu, mas moças bem criadas não suportariam as cargas que já carreguei e não se sujariam como já me sujei. Mas elas aguentam calcinhas, nunca gostei delas, marcavam minhas roupas e o que é pior, dilaceravam minha carne. Melhor mesmo era não usá-las e quando alguma senhora polida me olhasse com descaso abaixava-me perto de seu cônjuge para constrangê-los em público.
Tenho porte, mas não tenho classe,baby!
A decadência sempre foi a menina de meus olhos, mesmo que eu quisesse progredir sempre acabava me lançando na sarjeta, de onde jamais deveria ter saído. Por mais que gastasse tudo o que tinha em sapatos caros, cheirava à bebida barata.
Os sapatos vermelhos e as meias arrastão foram meu uniforme por anos, nas ruas aprendi a não esperar nada do outro que não fosse um direto cruzado.
Em meu caminho sempre houve quem quisesse só me derrubar.
Lembra de nosso último Natal juntos? Recordo que me deu sapatos vermelhos envernizados, daqueles caros que sempre gostei e eu te dei luvas de boxe.
Os bebês deveriam ganhar, ao invés de chupetas e doces, luvas de boxe e aquele boneco “João-bobo” para aprenderem golpear desde cedo.
Tenho braços finos, olhos dormidos, uma boca enorme, minha sorte são os pulsos firmes e a respiração constante. Mas o que derruba é o álcool, esse sim diminui as dores e os dias de vida, aliás, elegi a bebida como mãe-protetora, ela apóia, dá colo, esquenta o peito e atenua a visão dolosa do mundo.
Ainda calço aqueles sapatos, como que se batê-los e repetir em voz alta que não há lugar melhor que minha casa, voltasse a sentir o sereno das noites menos infelizes que esta.
Nunca me iludi com saudosismos baratos, mas sinto saudades do tempo em que estivemos juntos, tinha companhia e assunto depois do sexo. Com quem mais discutiria Maiakovski depois de trepar? Sexo bom, diga-se de passagem.
Perdi a conta de quantas vezes preparei o revolver e quis reduzir minha vida de forma simplista, como Maiakovski fez, quem dera tivesse tido coragem!
Optei pelos sacolejos das viagens, as caronas com estranhos, o sexo alucinado. Escolhi dissolver fronteiras e perverter o cais, ir além do que esperavam de mim. Preferi magoar.
Gostava do cheiro de sua jaqueta surrada que me aqueceu durante algumas noites, embora preferisse seu corpo. Mas nem sempre pôde estar comigo, o mar chamava você de tempos em tempos e eu ia ao porto ganhar a vida na espera de seu aroma em mim.
Assim nos deixávamos vaga e dolorosamente.
Trazia-me galhos de presente, um a cada chegada, alguns floridos outros estéreis, mas eles vinham com um toque de dúvida.
Havia mais de uma razão para viver naqueles tempos, embora aquela arma dentro da bíblia hora ou outra me desafiasse a brincar de roleta russa e ela sempre me deixou perder!
Apressados e quase sempre atrasados nos tocávamos e nos deixávamos sós.
Hoje encontrei um galho seu entre “O proletário voador” e “A plenos pulmões”, sangrei.
Que hora é melhor que agora, esta hora que falo, mordo e sangro?
Talvez um dia eu sinta saudade do hoje, dessa carta e do derramamento espontâneo que me deixa mais frágil que nunca.
Da mesma forma que vivemos, o inferno não pode esperar, é tudo agora ao mesmo tempo, já!
As palavras desse escrito, carregadas de ternura podem enganá-lo, baby!
Mas não redigi uma linha dada aos destemperos balzaquianos e sempre fechei os olhos para as rugas que me atravessavam o rosto, meu êxtase e castigo foram e sempre serão as premissas da luxúria.
Recordo-me do dia que nos conhecemos, quando me encontrou numa sarjeta qualquer, depois de ter sido sugada e abandonada.
Levou-me para sua casa, tirou-me a roupa, lavou-me, como que em um batismo, onde se tira todo pecado do mundo.
Uma estrangeira entre seus lençóis e não tocou-me a carne, não naquela noite!
Parecia-me engraçado não trepar comigo e se enfiar debaixo das cobertas e ficar olhando minha buceta, como se não fosse igual a todas as outras. Isso confundia e me envergonhava, tanto que fingia estar dormindo. Mas você se assegurava de que eu tivesse bem acordada fazendo perguntas do tipo: “quantos homens já teve?”, “quem foi o primeiro?”, “ele te amou?”, “como ele te deixou?”...
Enlouqueceu-me com seu interrogatório ao ponto de eu pedir que me currasse ou quebrasse meu pescoço! Entendo que queria mais que sexo.
Talvez fizesse isso para me deixar constrangida ou para me ferir.
Por isso me magoa tanto meu marido não perguntar como foi meu dia.
Os becos me eram mais gentis e menos aterradores que o cotidiano.
Acordei hoje com seu gosto impregnado entre minhas coxas, baby!
Não que estivesse aqui para tocar meus devaneios ou dispersar angústias antigas num tempo tão ido, mas pela mão gelada de outro que me tocara fundo sem mesmo me conhecer.
Sempre deixei claro o meu desgosto por acordar cedo demais!
Não por suas mãos frias que se aconchegavam entre meus regalos mornos e carcomidos, não pelos olhos inchados pelo porre da noite anterior, nem tão pouco por minha falta de humor matinal.
Despertar era algo maior que isso, um não querer ver, um asco precoce da rotina de fingimentos e consternações.
Cedo ou tarde experimentamos uma das piores sensações humanas, a rara certeza de estar só e de não ser útil ou vital para algo maior.
O simples abrir dos olhos é mais assustador do que os becos mal cheirosos ou as navalhas presas ao pescoço ao ser currada.
Mas nada pior que ter dois olhos esquerdos e a deformidade de não me adaptar.
A única constância é esse desespero, baby!
Mesmo as lembranças que vez ou outra me levam ao Colégio Diocesano, onde o toc-toc apressado dos sapatos envernizados e o sussurrar pelos corredores soavam pecado, não me deixam esquecer que desde o começo o impulso era o de me jogar contra os muros.
Os uniformes finamente engomados, as gravatas azuis como as saias e meias ¾ brancas revestiam esse desespero. Nem conhecia ainda as ruas da cidade baixa, muito menos o porto, mas naqueles dias de calor e febre, eles já chamavam por mim.
Tudo que fiz é embebido desse sentimento que me arrasta para o chão, baby!
Alimento-me do erro e ele prolonga minha existência, embora sinta que esse manco ético aumente ainda mais o peso de ser livre.
Já estou ancorada aqui há um ano e as ondas do cais do porto vêm me assombrar nas noites quentes.
Nunca gostei das casas que morei, nem mesmo essa que resido agora, grande demais, cheia de luxo e tão fria. Mesmo o nosso apartamento, decorado com um colchão mofado, caixotes e mesa de tapume, parecia-me luxuoso demais.
Nasci para as sarjetas, portos e pontas de rua!
Por quantas vezes fui pega escalando muros, quantas vezes fui surpreendida na ala masculina do internato? Nem me lembro mais!
Já esperei e esperam muito de mim, não estou à altura de esperas e creio que foi um dos poucos que nada esperou de minha parte.
Cobram-me um preço alto demais por escolhas equivocadas, sofro por não me encaixar nas necessidades alheias, mas nem por isso desisto de ser quem sou.
Tentei, por muito tempo, vencer esse sentimento autodestrutivo que toma minha rotina desde que me entendo por gente. De me trancar com meninos nos banheiros masculinos no colégio e até me deitar com desconhecidos.
Lanço-me contra muros embolorados e densos, construídos por outras pessoas para conter o inevitável, para deixar de fora o que seja constrangedor.
Mas só sei me estraçalhar neles, sem tirar um só tijolo alheio do lugar!
As minhas vontades tiraram-me o uniforme, as meias ¾ e as saias plissadas que não me importunavam tanto, mas as camisas brancas e a gravata oprimiam-me o peito, apertavam a garganta, não me deixavam respirar.
Soava-me castrador a imposição do igual, uniformes, rotinas, hora marcada são fivelas de camisas de força.
Sei de meus pecados e não os ignoro, embora os julgue menos pesados que não saber definir de maneira simplista onde me perco e porque desisti dos contínuos esforços para mudar minha atitude.
E pensar que foi tudo tão rápido, ao ponto de não me dar conta de que saborear pequenos momentos vale mais que uma vida inteira de esperas inúteis.
O automóvel ia a mais de cem por hora, nossos corpos a mil e seu membro em minha boca.
Quando os navios ancoravam no porto ao meu modo enchia-me de alegria e corria como criança ao encontro do cais.
Evitei a melancolia nesses dias frios, em que a geada encobriu as alamedas e matou Alguns mendigos, só agora percebo que nos amávamos, mas sempre é tarde para rememorar e quase dói.
Retiro pele sua sob minhas unhas, ainda e sei que carreguei mais que isso, o cheiro de maresia permeia meu hálito e dilata minhas pupilas.
Quando esbugalhava os olhos e dizia, é só sexo baby, quem mentia?
Enquanto os neons inconstantes refletiam em nossa parede nua, chamando para a boite Le Burlesque Noir, latejávamos em fúria grotesca.
E quem ousaria dizer que foi tudo um engano, baby?
Ao caminhar distraída pelo centro, numa manhã qualquer, vi um bêbado caído na rua, com a cabeça recostada no meio-fio, senti vontade de levá-lo para casa, como fez comigo, baby!
Lembrei-me de quando fugi do colégio, sem ter para onde ir, numa noite fria e sabendo do castigo que receberia me sentei no meio-fio e chorei. Muitas pessoas passaram por mim e só um bêbado todo sujo e rasgado veio me perguntar se eu precisava de ajuda. Um bêbado que encontrei na quinta esquina, que teve a gentileza de querer saber de mim, poderia ter tido medo, poderia ter gritado e corrido, mas não tive nenhum receio. Olhei direto nos olhos dele, já enxugando minhas lágrimas e disse, não quero voltar!
Ele sorriu e me disse:
─ Nem eu, nem eu!
Contou-me de sua saga na cidade, de seus sonhos caipiras, em dado momento a história dele começou a se parecer com a minha e acabamos bebendo na mesma garrafa e fitando as luzes que passavam por todos os lados. Ao lado dele esqueci-me do frio, da fome, do medo de ser castigada e vimos o dia amanhecer esverdeado e quadrado como o fundo da garrafa vazia de absinto.
O que acaba comigo é a realidade, baby!
A verdade sobre os ombros dói mais que os golpes da palmatória! E ainda trago marcas desses golpes em toda a minha alma, que arde bem mais que mãos depois de castigadas!
Por muito tempo me enganei inebriada pela inocente certeza de ser única, especial, insubstituível.
Mas ao comprar meias-finas entendi que não fazem apenas uma e sim milhares delas, para mulheres que por algum tempo têm o mesmo gosto que o meu!
O que me diferencia das outras são esses olhos enormes e agateados, vêem longe e atraem rápido demais!
Nunca quis esses olhos, nunca quis olhar as coisas com esse jeito de cachorro-do-mato, como quem assalta o galinheiro com prazer e foge para não ser apanhado.
Vejo as coisas como são e não quero encarar, desejei um filtro que me protegesse dessa dor nos olhos e não há óculos escuros que me livrem da verdade.
Recordei-me de uma noite em que me perguntou por que eu pedia para me foder com força que tivesse e naquela época não tinha a resposta.
Hoje tenho.
O que não dói, não machuca, não penetra fundo e não rasga, não é real, baby!
O engraçado é querermos colocar no outro a culpa de nossos defeitos.
Não sei bem porque meu avô materno era meu ídolo, acho que por um tempo o amei mais que ao meu pai. Talvez por ele ser muito permissivo comigo, deveria ter me posto freios antes de eu desembestar!
Sinto que aquela frase foi pior do que ser estuprada ou corrompida por um estranho!
E acabo retornando àquela padaria cada vez que tenho que escolher algo.
Carrego o vício de não saber escolher, aliás, o mal é mais grave, não escolho nunca, dou-me apenas o direito eterno das pequenas dúvidas e das grandes desistências.
Minha inocência foi perdida ali, no meio daqueles doces, com o cheiro de baunilha no ar!
Para mim não era apenas escolher um e sim abdicar das infinitas possibilidades contidas em cada opção desprezada.
E a farsa continua e se repete como ciclos de sofrimento absoluto, eu me embriagando e seguindo caminhos perigosos de desistência.
Meu avô sussurrou-me ao pé do ouvido: “você pode escolher o que quiser minha linda!” e assistiu inerte aos meus olhinhos pedintes e desorientados e não alcançou o mal que me fez!
Ah, Kerouac, ali começou minha saga de vícios e insatisfações!
Ah, vovô, ali descobri que era livre e quão difícil é escolher!
Tive outra crise de bulimia nervosa, doença que não me perturbava desde os treze anos.
Naquela época não entendia e nem os médicos, o porquê das crises. Mesmo com fome, meu corpo se negava a segurar qualquer coisa que eu comesse.
De forma inconsciente, meu corpo me punia por não fazer todas as coisas que tinha vontade. E num ato de revolução berrava em dores descomunais, nenhum remédio me curou! Ardi em febre por sete dias, a pele latejava entre brotoejas que estouravam feito a verdade que explodia dentro de mim. Insatisfeita com a vida que me impunham sentia nojo de mim, de minha imagem e de tudo que representava para aquelas que esperavam demais de mim.
Ora, eu tinha tudo que uma moça poderia querer! Vestiam-me nos mantos da vitória social burguesa, formavam-me num colégio católico e iam me casar com um político, ou um advogado, um médico, quem sabe. E ele viraria meu dono, me sodomizaria e eu viveria ali apenas pra servi-lo de cama e mesa, a mucama de luxo!
só podia mesmo vomitar, regurgitar uma realidade intragável, naquele momento de minha vida.
Eu ansiava por um corpo, como o corpo de Padre Bernardo dentro das saias da Irmã Clotilde! Ah, era aquilo que eu queria. Aquela expressão de felicidade incontida, aquele grito d ela abafado pela mão dele. Era aquilo que eu queria!
Por conta de minha crise minha mãe veio me visitar, sabe que não gosto dela!
Deve se lembrar quando ela apareceu, logo que me levou para morar com você.
A cara de nojo que fazia ao olhar as nossas coisas, e aquele lencinho ridículo que colocava na cara, como se tudo estivesse contaminado e fétido!
É mereceu o apelido que deu a ela: “Sra. Stone”!
Vi diferenças nela dessa última vez, tinha os cabelos bem mais acinzentados, os olhos estavam caídos, não eram aqueles olhos superiores e altivos que ostentava naquele rosto sisudo, sobre aquele pescoço longo, quase vi meiguice ali.
Trouxe algumas roupas de bom tecido que não usava mais, pois engordara e como sei costurar, fez questão que eu as reforme para mim e citou as tais grifes que ela tanto deu valor durante sua vida inteira.
Estava entusiasmada com os vestidos e como poderiam ficar bonitos depois de uma reforma, na mesma sacola veio uma caixa de prata que ficou no fundo, pareceu-me familiar, mas dei mais atenção aos vestidos e à felicidade dela.
Em certo momento me disse, viu sua caixinha e ao mesmo tempo em que falou, busquei o objeto no meio de algumas peças de roupa que sobraram na sacola. Sim, eu reconhecia a caixa.
─ É sua, lembra filha? Toda vez que a via em cima de minha penteadeira vinha ao meu encontro a cena de seus irmãos destruindo o meu jardim e de você apanhando as migalhas das flores e das folhas e guardando nessa caixinha. Depois que foi para o colégio interno, só voltou em casa para o enterro de seu pai e estava tão transtornada que não a separei para te entregar!
Veio-me a cena, tal qual ela descrevera, mas rememorei até mesmo meus pensamentos, dizia internamente, vou te curar, tudo vai ficar bem, como se houvesse algo que pudesse refazê-las do esgarçamento.
Hoje senti saudades, não sei se por conta de saber que não estará ao meu lado cada vez que eu acordar e que quando ler de minha saudade já não terá tanta importância assim. Ou se por força da carência de suas palavras fortes que rasgaram meu senso há décadas atrás.
Todos os cigarros que acendi desde então foram em sua homenagem, não pelo vício, mas pela carga de se queimarem por si só, pois trazem pólvora na veia. Como você, baby!
Estou sozinha, sinto-me assim faz alguns dias, já tenho noção desse estado há algum tempo, mas não encontrar alguém que confio para desabafar me corta ao meio.
Nunca trouxe a leveza das plumas nesse ser desistente, mas ao me ater em sua presença minhas angústias se calavam. Não sei mais chorar ao invés disso entrego-me ao ranger de dentes e ao silêncio visceral.
A carta tem sido uma válvula de escape, a única aniquidade, dissolver-me em palavras alivia o peito!
E ainda sim, como Sísifo, eu carrego a pedra de meus erros nas costas, sem ter a quem recorrer.
Não trago mais o crucifixo que me deu de presente, gostava de trazê-lo entre os seios para me lembrar da maneira que passeava com sua língua entre eles. Precisei penhorar a jóia para me alimentar. Não consegui resgatar nem a jóia e nem a fé!
Sexta-feira, Maio 15, 2009
Sábado, Junho 21, 2008
Carta a Guerra (II)
“escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu” – Clarice Lispector
Caro Guerra,
Confesso que cada carta sua é uma grata surpresa, embora saiba que venham e que são sempre deflagradas por um assunto qualquer que tenhamos debatido, sou pega sem sobreaviso e tomada por um sentimento de euforia insensato, que gradualmente é substituído por um vazio imenso, quebram-me a quietude as indagações ferinas que expõe. Um frio percorre a espinha dorsal nessa transição, um pressentimento de que não passarei ilesa pelo escrito.
Apetece-me a confiança e sinto a liberdade de compartilhar dessa loucura sã que traz em si, mesmo sabendo que é muito mais que isso que nos faz próximos, temos um desenraizamento com a realidade convencional que o inconsciente coletivo teima em impor.
Quando estou sob o efeito de suas confissões cotidianas, que de tão comuns fazem-me estar presente sinestésica em suas vicissitudes, compadecida de sua quase ternura, permutando experiências contigo, querido amigo, e deixo-me levar no sentido literal da palavra.
Usamos a linguagem para: fotografar situações corriqueiras, sem disfarces, alegorias ou embustes; enfatizar as ironias das convenções sociais; descrever momentos triviais, flagrados por um olhar intrínseco, sem encadeamento cronológico ou lógico apenas para exaltar nosso egoísmo desgraçado, e essas semelhanças aproxima-nos.
Sendo franca no cerne da palavra, o que me move é a intriga, o desconforto, a inveja, o ódio, o frisson, a desaprovação, o desafio do entendimento que causo no outro (leitor). Aí reside minha excitação egoísta pela escrita, meu gozo narcisista incurável. Mas o ler um bom texto é o mais próximo de empatia que pude alcançar e proporciona-me isso. Só sei ser sinestésica, onde o impalpável, o intangível, o impreciso merece atenção redobrada, pois a realidade não é meu ingrediente preferido, esse mundo circundante, cíclico, repetitivo, causa-me náusea e tédio.
Pouco me importa o pano de fundo, se o negão do sebo, ou se Mirisola em parada gay, jogo minhas fichas todas na ambigüidade da interpretação, na fuga do real para extirpar ou exaltar a beleza do feio, num caráter que de tão simbólico toma ares cinematográficos, mas não como superprodução americana e sim como aqueles filmes “trash” que tanto se assemelham com a realidade burlesca.
Não nego que ser um escritor do sexo feminino me favorece em alguns sentidos, até por causar curiosidade, desdém, estranheza e tesão em quem me lê e não se engane supondo que não uso isso ao meu favor, pois uso. Mas em alguns momentos me subestimam, “escrita de mulherzinha”, “mulher não entende disso” ou o pior, “está escrevendo como homem”, (é mole?) como se escrever como homem seja superior a escrever como mulher, os absurdos humanos.
Admiro sua força na prosa intimista e consternada, ao tratar de acometimentos existencialistas, destilados em primeira pessoa, confessional, ao dissecar a temática angustiada e insatisfeita, lembra-me Sartre, mas sei que não gosta de comparações.
Por tratarmos com intimidade lúcida a dialética do frenesi, explicitando fluxos de consciência salpicados de narrativas referenciais e mentiras deslavadas, em descontinuidade temporal, num jogo sádico com o leitor, somos tomados pelo que não somos, o que às vezes nos diverte. Não tenho pudores em ser sincera com relação à brincadeira séria que é escrever. Sei que prima, como eu a dignidade da literatura, sem ser puritano (o que não somos de modo algum).
O que me parece mais evidente é que debulharmos nossos conflitos pessoais nos afeta profundamente, pois esse derramamento em cada palavra proferida é uma castração de sentido, não somos absorvidos com a intensidade que desejamos (na maioria das vezes) e ainda nos pegamos insatisfeitos com os estereótipos que formam ao nosso respeito, já deveríamos estar acostumados com o fato de que o entendimento passa por empatia e conhecimento de causa.
“Como se colocar no lugar do outro e sentir algo que não se tem a mínima noção do que seja?”
“O inferno são os outros”, como já disse Sartre, mas assumo o meu inferno pessoal, intransferível e a minha completa ignorância dentro do universo estrangeiro.
A compreensão, o esmiuçar cognitivo alheio não é tarefa fácil, embora sejamos claros, confessionais, quase simplórios por nos mostrar (ou não) em aspectos cotidianos e comuns a maioria das pessoas, somos introspectivos e devotamos cargas emocionais, por vezes, pesadas demais para os leitores mais superficiais ou menos atentos. Se o entendimento passa pela letra impressa e depois pelo outro, creio ser necessário que eu aprenda uma forma de trazer o leitor à minha esfera com palavras, esse conduzir tão natural em sua escrita ainda é complicado para mim.
Não sinto necessidade de explicar minhas particularidades para você, pois há transparência em nossa relação, enquanto escritora-leitor e vice-versa. Busco a desenvoltura consciente que você apresenta, a segurança de palavra e significado que imprime, sem amarras e sem medo.
Quanto a sua revolta pessoal, nobre amigo, creia-me nunca te abandonará na totalidade, a não ser que você se entregue, mas te vejo como Estela, uma personagem minha do romance “Sob o olhar de Cecília”, que mesmo sem saída grita a plenos pulmões que está viva e que continua lutando.
Deixo-te por aqui, sem mais delongas ou dissertações, certa de que os caminhos mais árduos são os destinados aos inconformados como nós.
Grata pelo carinho,
Larissa Marques, 09 de julho de 2008.
Caro Guerra,
Confesso que cada carta sua é uma grata surpresa, embora saiba que venham e que são sempre deflagradas por um assunto qualquer que tenhamos debatido, sou pega sem sobreaviso e tomada por um sentimento de euforia insensato, que gradualmente é substituído por um vazio imenso, quebram-me a quietude as indagações ferinas que expõe. Um frio percorre a espinha dorsal nessa transição, um pressentimento de que não passarei ilesa pelo escrito.
Apetece-me a confiança e sinto a liberdade de compartilhar dessa loucura sã que traz em si, mesmo sabendo que é muito mais que isso que nos faz próximos, temos um desenraizamento com a realidade convencional que o inconsciente coletivo teima em impor.
Quando estou sob o efeito de suas confissões cotidianas, que de tão comuns fazem-me estar presente sinestésica em suas vicissitudes, compadecida de sua quase ternura, permutando experiências contigo, querido amigo, e deixo-me levar no sentido literal da palavra.
Usamos a linguagem para: fotografar situações corriqueiras, sem disfarces, alegorias ou embustes; enfatizar as ironias das convenções sociais; descrever momentos triviais, flagrados por um olhar intrínseco, sem encadeamento cronológico ou lógico apenas para exaltar nosso egoísmo desgraçado, e essas semelhanças aproxima-nos.
Sendo franca no cerne da palavra, o que me move é a intriga, o desconforto, a inveja, o ódio, o frisson, a desaprovação, o desafio do entendimento que causo no outro (leitor). Aí reside minha excitação egoísta pela escrita, meu gozo narcisista incurável. Mas o ler um bom texto é o mais próximo de empatia que pude alcançar e proporciona-me isso. Só sei ser sinestésica, onde o impalpável, o intangível, o impreciso merece atenção redobrada, pois a realidade não é meu ingrediente preferido, esse mundo circundante, cíclico, repetitivo, causa-me náusea e tédio.
Pouco me importa o pano de fundo, se o negão do sebo, ou se Mirisola em parada gay, jogo minhas fichas todas na ambigüidade da interpretação, na fuga do real para extirpar ou exaltar a beleza do feio, num caráter que de tão simbólico toma ares cinematográficos, mas não como superprodução americana e sim como aqueles filmes “trash” que tanto se assemelham com a realidade burlesca.
Não nego que ser um escritor do sexo feminino me favorece em alguns sentidos, até por causar curiosidade, desdém, estranheza e tesão em quem me lê e não se engane supondo que não uso isso ao meu favor, pois uso. Mas em alguns momentos me subestimam, “escrita de mulherzinha”, “mulher não entende disso” ou o pior, “está escrevendo como homem”, (é mole?) como se escrever como homem seja superior a escrever como mulher, os absurdos humanos.
Admiro sua força na prosa intimista e consternada, ao tratar de acometimentos existencialistas, destilados em primeira pessoa, confessional, ao dissecar a temática angustiada e insatisfeita, lembra-me Sartre, mas sei que não gosta de comparações.
Por tratarmos com intimidade lúcida a dialética do frenesi, explicitando fluxos de consciência salpicados de narrativas referenciais e mentiras deslavadas, em descontinuidade temporal, num jogo sádico com o leitor, somos tomados pelo que não somos, o que às vezes nos diverte. Não tenho pudores em ser sincera com relação à brincadeira séria que é escrever. Sei que prima, como eu a dignidade da literatura, sem ser puritano (o que não somos de modo algum).
O que me parece mais evidente é que debulharmos nossos conflitos pessoais nos afeta profundamente, pois esse derramamento em cada palavra proferida é uma castração de sentido, não somos absorvidos com a intensidade que desejamos (na maioria das vezes) e ainda nos pegamos insatisfeitos com os estereótipos que formam ao nosso respeito, já deveríamos estar acostumados com o fato de que o entendimento passa por empatia e conhecimento de causa.
“Como se colocar no lugar do outro e sentir algo que não se tem a mínima noção do que seja?”
“O inferno são os outros”, como já disse Sartre, mas assumo o meu inferno pessoal, intransferível e a minha completa ignorância dentro do universo estrangeiro.
A compreensão, o esmiuçar cognitivo alheio não é tarefa fácil, embora sejamos claros, confessionais, quase simplórios por nos mostrar (ou não) em aspectos cotidianos e comuns a maioria das pessoas, somos introspectivos e devotamos cargas emocionais, por vezes, pesadas demais para os leitores mais superficiais ou menos atentos. Se o entendimento passa pela letra impressa e depois pelo outro, creio ser necessário que eu aprenda uma forma de trazer o leitor à minha esfera com palavras, esse conduzir tão natural em sua escrita ainda é complicado para mim.
Não sinto necessidade de explicar minhas particularidades para você, pois há transparência em nossa relação, enquanto escritora-leitor e vice-versa. Busco a desenvoltura consciente que você apresenta, a segurança de palavra e significado que imprime, sem amarras e sem medo.
Quanto a sua revolta pessoal, nobre amigo, creia-me nunca te abandonará na totalidade, a não ser que você se entregue, mas te vejo como Estela, uma personagem minha do romance “Sob o olhar de Cecília”, que mesmo sem saída grita a plenos pulmões que está viva e que continua lutando.
Deixo-te por aqui, sem mais delongas ou dissertações, certa de que os caminhos mais árduos são os destinados aos inconformados como nós.
Grata pelo carinho,
Larissa Marques, 09 de julho de 2008.
Sábado, Março 15, 2008
Carta a Guerra
Caro, Guerra,
Sinto-me muito compadecida das dores que esgarça em sua prima-carta a mim e tentarei decifrar o que está por trás dessa sua máscara da canalhice que insiste em sustentar. Até o maior dos canalhas já curvou sua espinha ao amor, Henry teve sua June, Anaïs teve seu Henry e porque não assumir que ambos amaram a mesma June e assim por diante, como aquele poema de Drummond que citava uma “Lili que não amava ninguém”, haveria um amor secreto, mal resolvido, não comprometido ou proibido? Como afirmar que não há amor?
Não creio haver um ser polarizado à esse extremo e como já me confessara a boca miúda, esse seu jeito malvado, sarcástico é uma maneira de revidar as dores que já te causaram, mas será que ainda não causam, estaria imune a tudo?
Mas tentando encontrar o cerne do que te moveu a me escrever nobre escrita, creio que seja o mesmo que me moveu a responder-te, a curiosidade. Como é inconcebível a mim existir um ser como te pinta, devo ser objeto de curiosidade aos teus olhos. Ou talvez sejamos óbvios demais, tanto que nos dissimulamos em primeiras pessoas, personagens que talvez queiramos alcançar.
Aqui, Seu Antônio e Dona Edna são donos da mercearia mais próxima de minha pequena propriedade, me conhecem por nome, e por sobrenome pela conta da caderneta de acertos de fim de mês, faço as compras e o filho deles vem trazer até dentro de minha cozinha, outro dia eu tão cheia de trabalho o menino me perguntou: “- dona Pagu, quer que eu guarde os frescos na geladeira? - Veja e diga que não é gentileza, se não há amor nesse pequeno ato!
Nem mesmo aqui estamos livres das modernidades, há uma drogaria em cada esquina e o posto de saúde distribui camisinhas e pílulas gratuitas a todos os moradores cadastrados ali. É fácil adoecer, pois agora há entrega a domicílio.
Minha avô é enfermeira, meu avô dentista e moravam numa fazenda separada por uma ponte e cinco quilômetros do vilarejo mais próximo, isso há uns sessenta anos atrás, eram eles os médicos da região, não existia penicilina, pensa que as pessoas ficavam doentes como ficam hoje? Davam xarope pra tudo e pinga para extração dentária e era aquela profilaxia que salvava o povo de toda região.
Não creio que acredite mesmo que eu viva em uma redoma ou em uma estância, como os sanatórios de antigamente, conheço bem as tais biscates e não acho nada feio o que elas fazem, pois é exatamente o que fazemos todos, nos vendemos a todo momento, para um emprego, para o gerente do banco, para o professor da faculdade, para o escritor que admiramos, talvez alguns até sem saber, inocentemente, diria. Se é que essa palavra pode ser usada em nossa raça após os dez anos de idade, ou até antes disso. Vi em algum desses programas da Discovery que aprende-se a mentir com quatro anos.
Numa família como a minha, vinte e um tios maternos e dez tios paternos, é difícil encontrar uma anima que não se encaixe em um deles, ou em meus oitenta e seis primos primeiro, entende? A raça humana me cerca em família, por isso tento um pouco de isolamento,conheço de cor e salteado esses mundinhos provincianos!
Aos fatos cotidianos brindo com sangria e Nelson Rodrigues.
Lembra das biscates? Acho que já fui uma e convenci um resoluto solteiro a ficar comigo, porque eu o amava, e nos casamos de papel passado e tudo. Não pense que usei o velho truque da barriga, porque esse não funciona mais, há mais filhos sem pai e sem mãe, criados por avós, tios, abandonados e em casas de adoção, do que sonha nossa vã filosofia! E nessa era da falta de amor pelos filhos e não vou nem citar esse que a mídia está veiculando para fazer um marketing familiar, pois a filosofia é: “apedrejem as putas, os fariseus com seus rabos e esqueçam os meus!”
Já tive vinte quatro anos, já fui viçosa, cheirava como uva e já julgava saber de tudo e ser inatingível. Não que tenha mudado muita coisa, além da lei da gravidade. Sou uma balzaquiana, me cuido e cheiro bem ainda, mas as coisas em minha cabeça mudaram muito, talvez pelo fato de ter uma filha, a vida deu-me sela, cabresto, convenções e chicotes, o que não me impede de fazer o que gosto, o que quero.
Não estou minimizando os problemas, nem as bandalheiras humanas, elas existem!
As mulheres mentem, mas os homens também! Brincamos de meu amorzinho, mas ama-se de verdade também, mas como nada é para sempre e nem todos encaram isso. Vive-se de aparências e as máscaras por vezes são mais confortáveis que nossa cara nua, sim!
Não só os poetas e loucos mentem, nós temos coragem o bastante para admitir isso.
Por isso meus amores são os poetas, os que brindam e comungam com a palavra sem desferí-la como arma letal, machucam-nos, sim, mas a dor é mola humana.
Se nos mudarmos para Londres, para Paris, ou para o quinto dos infernos, que seria a nós mais apropriado, seria tudo do mesmo jeito, só que em língua diferente.
Se não sangramos, se não sofremos, se não choramos, se não rimos, se não amamos, que seria a vida, meu caro amigo das letras?
O que seria da nossa escrita?
Sinto-me muito compadecida das dores que esgarça em sua prima-carta a mim e tentarei decifrar o que está por trás dessa sua máscara da canalhice que insiste em sustentar. Até o maior dos canalhas já curvou sua espinha ao amor, Henry teve sua June, Anaïs teve seu Henry e porque não assumir que ambos amaram a mesma June e assim por diante, como aquele poema de Drummond que citava uma “Lili que não amava ninguém”, haveria um amor secreto, mal resolvido, não comprometido ou proibido? Como afirmar que não há amor?
Não creio haver um ser polarizado à esse extremo e como já me confessara a boca miúda, esse seu jeito malvado, sarcástico é uma maneira de revidar as dores que já te causaram, mas será que ainda não causam, estaria imune a tudo?
Mas tentando encontrar o cerne do que te moveu a me escrever nobre escrita, creio que seja o mesmo que me moveu a responder-te, a curiosidade. Como é inconcebível a mim existir um ser como te pinta, devo ser objeto de curiosidade aos teus olhos. Ou talvez sejamos óbvios demais, tanto que nos dissimulamos em primeiras pessoas, personagens que talvez queiramos alcançar.
Aqui, Seu Antônio e Dona Edna são donos da mercearia mais próxima de minha pequena propriedade, me conhecem por nome, e por sobrenome pela conta da caderneta de acertos de fim de mês, faço as compras e o filho deles vem trazer até dentro de minha cozinha, outro dia eu tão cheia de trabalho o menino me perguntou: “- dona Pagu, quer que eu guarde os frescos na geladeira? - Veja e diga que não é gentileza, se não há amor nesse pequeno ato!
Nem mesmo aqui estamos livres das modernidades, há uma drogaria em cada esquina e o posto de saúde distribui camisinhas e pílulas gratuitas a todos os moradores cadastrados ali. É fácil adoecer, pois agora há entrega a domicílio.
Minha avô é enfermeira, meu avô dentista e moravam numa fazenda separada por uma ponte e cinco quilômetros do vilarejo mais próximo, isso há uns sessenta anos atrás, eram eles os médicos da região, não existia penicilina, pensa que as pessoas ficavam doentes como ficam hoje? Davam xarope pra tudo e pinga para extração dentária e era aquela profilaxia que salvava o povo de toda região.
Não creio que acredite mesmo que eu viva em uma redoma ou em uma estância, como os sanatórios de antigamente, conheço bem as tais biscates e não acho nada feio o que elas fazem, pois é exatamente o que fazemos todos, nos vendemos a todo momento, para um emprego, para o gerente do banco, para o professor da faculdade, para o escritor que admiramos, talvez alguns até sem saber, inocentemente, diria. Se é que essa palavra pode ser usada em nossa raça após os dez anos de idade, ou até antes disso. Vi em algum desses programas da Discovery que aprende-se a mentir com quatro anos.
Numa família como a minha, vinte e um tios maternos e dez tios paternos, é difícil encontrar uma anima que não se encaixe em um deles, ou em meus oitenta e seis primos primeiro, entende? A raça humana me cerca em família, por isso tento um pouco de isolamento,conheço de cor e salteado esses mundinhos provincianos!
Aos fatos cotidianos brindo com sangria e Nelson Rodrigues.
Lembra das biscates? Acho que já fui uma e convenci um resoluto solteiro a ficar comigo, porque eu o amava, e nos casamos de papel passado e tudo. Não pense que usei o velho truque da barriga, porque esse não funciona mais, há mais filhos sem pai e sem mãe, criados por avós, tios, abandonados e em casas de adoção, do que sonha nossa vã filosofia! E nessa era da falta de amor pelos filhos e não vou nem citar esse que a mídia está veiculando para fazer um marketing familiar, pois a filosofia é: “apedrejem as putas, os fariseus com seus rabos e esqueçam os meus!”
Já tive vinte quatro anos, já fui viçosa, cheirava como uva e já julgava saber de tudo e ser inatingível. Não que tenha mudado muita coisa, além da lei da gravidade. Sou uma balzaquiana, me cuido e cheiro bem ainda, mas as coisas em minha cabeça mudaram muito, talvez pelo fato de ter uma filha, a vida deu-me sela, cabresto, convenções e chicotes, o que não me impede de fazer o que gosto, o que quero.
Não estou minimizando os problemas, nem as bandalheiras humanas, elas existem!
As mulheres mentem, mas os homens também! Brincamos de meu amorzinho, mas ama-se de verdade também, mas como nada é para sempre e nem todos encaram isso. Vive-se de aparências e as máscaras por vezes são mais confortáveis que nossa cara nua, sim!
Não só os poetas e loucos mentem, nós temos coragem o bastante para admitir isso.
Por isso meus amores são os poetas, os que brindam e comungam com a palavra sem desferí-la como arma letal, machucam-nos, sim, mas a dor é mola humana.
Se nos mudarmos para Londres, para Paris, ou para o quinto dos infernos, que seria a nós mais apropriado, seria tudo do mesmo jeito, só que em língua diferente.
Se não sangramos, se não sofremos, se não choramos, se não rimos, se não amamos, que seria a vida, meu caro amigo das letras?
O que seria da nossa escrita?
Domingo, Janeiro 27, 2008
O mal do homem
O homem traz um defeito enorme em si. Quer quebrar a verdade do outro com a sua. Como se a sua pedra fosse mais firme e mais verdadeira que a do seu próximo.
O homem traz um defeito enorme em si. Quer quebrar a verdade do outro com a sua. Como se a sua pedra fosse mais firme e mais verdadeira que a do seu próximo.
Terça-feira, Maio 15, 2007
Baudelaire
Baudelaire,
Seus paraísos criaram nódoas, suas flores murcharam, sua voz se calou um ano antes de seu coração.
Dorme, Baudelaire! Dorme, meu amado!
Quem sabe cubram-te com um manto de papoulas e você as coma em segredo!
Seguirei amando lhe por mais cento e quarenta anos!
Seus paraísos criaram nódoas, suas flores murcharam, sua voz se calou um ano antes de seu coração.
Dorme, Baudelaire! Dorme, meu amado!
Quem sabe cubram-te com um manto de papoulas e você as coma em segredo!
Seguirei amando lhe por mais cento e quarenta anos!
Sexta-feira, Maio 11, 2007
Insulto
Insulto
Não sei dizer se todo escritor sente o que sinto, e até por saber que as visões são subjetivas vou retratar meu sentimento absurdo. Sinto-me insultada pelas folhas de papel em branco, sejam pautadas ou não, olham e debocham de mim, como se dissessem “estamos aqui, e passamos impunes, não vai fazer nada?”.
Tenho uma compulsão mórbida por escrever bobagens absurdas, sem importância poética ou vital, que passam pela total subjetividade dessa mente torta e desgovernada. Aliás, já ouvi dizer que muitos acham bobagem o que escrevem, tudo o que eu escrevo é bobagem, mas já me pergunto o que é bobagem, ou o que já não foi dito ainda?
Estou então em uma encruzilhada, de um lado a folha a zombar de minha ignorância prosaica, de outro o plágio que afirma já ter dito isso antes, um lado retratado por essa vontade latente que me impulsiona a escrever mais e mais bobagens, sem esquecer o leitor, o maior lesado em toda essa divagação.
Não tenho discernimento maduro o suficiente para poupar meus leitores de minha mão desaforada, que não suporta o insulto das folhas em branco, mas no meu íntimo sei por que elas zombam de mim, e me insultam, porque sabem que não tenho autoridade nenhuma sobre elas, por perceberem que não passo de um atento ao mundo que me cerca, se eu fosse um talento, certamente não fariam chacota de mim.
Não sei dizer se todo escritor sente o que sinto, e até por saber que as visões são subjetivas vou retratar meu sentimento absurdo. Sinto-me insultada pelas folhas de papel em branco, sejam pautadas ou não, olham e debocham de mim, como se dissessem “estamos aqui, e passamos impunes, não vai fazer nada?”.
Tenho uma compulsão mórbida por escrever bobagens absurdas, sem importância poética ou vital, que passam pela total subjetividade dessa mente torta e desgovernada. Aliás, já ouvi dizer que muitos acham bobagem o que escrevem, tudo o que eu escrevo é bobagem, mas já me pergunto o que é bobagem, ou o que já não foi dito ainda?
Estou então em uma encruzilhada, de um lado a folha a zombar de minha ignorância prosaica, de outro o plágio que afirma já ter dito isso antes, um lado retratado por essa vontade latente que me impulsiona a escrever mais e mais bobagens, sem esquecer o leitor, o maior lesado em toda essa divagação.
Não tenho discernimento maduro o suficiente para poupar meus leitores de minha mão desaforada, que não suporta o insulto das folhas em branco, mas no meu íntimo sei por que elas zombam de mim, e me insultam, porque sabem que não tenho autoridade nenhuma sobre elas, por perceberem que não passo de um atento ao mundo que me cerca, se eu fosse um talento, certamente não fariam chacota de mim.
Terça-feira, Maio 08, 2007
Decepção

Ontem ouvi de alguém: “Estou decepcionado com você!”
Quero que me contem uma novidade!
As pessoas esperam muito mais de mim do que posso dar, é uma falta de respeito com essa pessoa cansada de ceder, bem querer e tentar. Já não há o que faça, ou o que não faça que não deixe alguém magoado, sofrido, atingido com algum ato ou ausência minha.
Queria apenas ser esquecida, por um décimo de milionésimo de segundo, jogar-me do alto de uma escada alta, de cabeça no chão, talvez assim deixassem-me em paz, deixassem de cobrar mais do que posso dar.
Deixem-me ascender meu cigarro, me dêem meus cinco minutos!
Estou decepcionada com muita gente e acreditem até eu mesma me decepciono, que coisa não é? Eu sirvo de torturadora de mim, cobro-me mais que qualquer estrangeiro.
O presidente me decepciona, a minha secretária me decepciona, minha máquina de escrever me decepciona, meu carro, minha imagem, desconhecidos, tanta coisa me frustra. Enfim, nascemos para nos decepcionar, quem ainda não sabe disso, aprenda, é uma lição importante!
Peço aos desavisados que leiam o aviso e não me cobrem depois:
Em algum dia, em qualquer momento vou te decepcionar, não espere muito de mim, pois não sei me doar. Sou ególatra, insensível, nada amável, pouco amiga. Cuidado, pois o que faço melhor é decepcionar, e se não tem meios de superar isso, me deixe quieta!
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